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O que é a hipertrofia muscular?

Aumento da massa muscular será hereditário?

De forma muito simples, podemos definir a hipertrofia muscular como o aumento do tecido muscular (ou mesmo da região transversal do músculo). Este processo adaptativo à contração muscular, encontra-se intimamente ligado a três fenómenos [1]:

  • Aumento de elementos contrácteis – sarcómeros (em série e/ou em paralelo)
  • Aumento de elementos não contrácteis (ex. colagénio, organelos, mioglobina, glicogénio etc.) e fluido sarcoplasmático.
  • Aumento da atividade das células satélite.

Em condições normais, a hipertrofia visível é o resultado do incremento dos sarcómeros (unidade contráctil do músculo) em paralelo [2, 3], que por sua vez resulta num aumento individual das fibras musculares e consequente aumento da região transversal do músculo [4].

Podemos pensar na hipertrofia em paralelo fazendo uma analogia entre o sarcómero e “sardinhas enlatadas”, onde cada unidade é tipicamente posicionada em paralelo. Por sua vez, a hipertrofia longitudinal poderá ser visualizada como o incremento dos sarcómeros de forma longitudinal, um pouco como a adição de “pérolas a um colar”. O aumento dos sarcómeros em série ocorre, tipicamente, quando o músculo é obrigado a adaptar-se a um novo comprimento funcional [4]. Alguma evidência também sugere que a hipertrofia em série possa ocorrer na fase inicial do treino, provavelmente nas 5 semanas iniciais [5, 6].

O tipo de treino pode também gerar hipertrofia longitudinal, se a velocidade da ação concêntrica for aumentada, mesmo em atletas treinados [5, 7]. Outros fatores, para além do exercício (tensão mecânica, dano muscular e stress metabólico), podem influenciar a resposta hipertrófica, nomeadamente: hipoxia, hormonas e citocinas, migração de células satélite, expansão celular e diversas vias miogénicas (akt/mTOR, MAPK e vias cálcio-dependentes) [1]. De forma resumida, os músculos podem incrementar as suas unidades contrácteis tanto em paralelo como em série, no entanto a primeira parece ser a verdadeira responsável pelo aumento da sua dimensão. Existe uma componente hereditária inegável, entre a quantidade total e apendicular (braços e pernas) de massa isenta de gordura (MIG) e a expressão de determinados genes, nomeadamente em relação a alguns polimorfismos genéticos (HSD17B11, VCAN, ADAMTSL3, IRS1, FTO) [8].

Apetece dizer, em tom de brincadeira, se querem mais massa muscular escolham bem os pais 😊 - No entanto não desanime! Apesar de existir uma importante componente hereditária, no que diz respeito aos ganhos de massa muscular, a mesma é um órgão muito dinâmico que responde facilmente a estímulos como o treino e a nutrição [9].

 

Sobre o autor:

Filipe Teixeira é Nutricionista (CP nº3277N da Ordem dos Nutricionistas) e Doutor (com Distinção e Louvor) em Motricidade Humana - Fisiologia do Exercício pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, tendo efetuado o seu Doutoramento no Laboratório de Fisiologia e Bioquímica do Exercício da mesma faculdade. É também Diretor de Inovação da Bettery S.A. e responsável pelo Bettery Life Lab. É atualmente Professor Regente de Bioquímica Geral e Bioquímica Metabólica na Licenciatura em Ciências da Nutrição, tendo já lecionado as Unidade Curriculares de Dietoterapia, Nutrição e Desporto e Alimentação e Nutrição Humana. Possui diversas publicações em revistas científicas internacionais de renome, entre as quais se destacam a Clinical Nutrition (revista oficial da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism), Medicine & Science in Sports & Exercise (revista oficial do American College of Sports Medicine), Biology, Journal of Sport Sciences, European Journal of Sport Science (revista oficial do European College of Sport Science), Progress in Cardiovascular Diseases, Journal of Ethnopharmacology  e Pharmacological Research.

 

Bibliografia
  1. Schoenfeld, B.J., The mechanisms of muscle hypertrophy and their application to resistance training. J Strength Cond Res, 2010. 24(10): p. 2857-72.
  2. Paul, A.C. and N. Rosenthal, Different modes of hypertrophy in skeletal muscle fibers. J Cell Biol, 2002. 156(4): p. 751-60.
  3. Tesch, P.A. and L. Larsson, Muscle hypertrophy in bodybuilders. Eur J Appl Physiol Occup Physiol, 1982. 49(3): p. 301-6.
  4. Toigo, M. and U. Boutellier, New fundamental resistance exercise determinants of molecular and cellular muscle adaptations. Eur J Appl Physiol, 2006. 97(6): p. 643-63.
  5. Blazevich, A.J., et al., Training-specific muscle architecture adaptation after 5-wk training in athletes. Med Sci Sports Exerc, 2003. 35(12): p. 2013-22.
  6. Seynnes, O.R., M. de Boer, and M.V. Narici, Early skeletal muscle hypertrophy and architectural changes in response to high-intensity resistance training. J Appl Physiol (1985), 2007. 102(1): p. 368-73.
  7. Alegre, L.M., et al., Effects of dynamic resistance training on fascicle lengthand isometric strength. Journal of Sports Sciences, 2006. 24(5): p. 501-508.
  8. Zillikens, M.C., et al., Large meta-analysis of genome-wide association studies identifies five loci for lean body mass. Nature Communications, 2017. 8(1): p. 80.
  9. Smith, G.I. and B. Mittendorfer, Sexual dimorphism in skeletal muscle protein turnover. J Appl Physiol (1985), 2016. 120(6): p. 674-82.